Proclamados os eleitos no pleito de domingo passado, em segundo turno, surge a oportunidade adequada para enfocar as distorções do sistema político. Por sua composição intrínseca, ele tem-se tornado refratário a qualquer mudança, usando para tanto o poder de decisão do Congresso Nacional, a quem compete alterá-lo.
O pleito se encerrou registrando a maior taxa de todos os tempos de cidadãos sem preferência por qualquer partido político. Série histórica mantida pelo Ibope comprova ser este contingente representado por 73% do eleitorado, a maior proporção desde 1988, quando começou o registro. Até agosto do ano passado, após os protestos, os sem preferência partidária eram 62%.
De lá para cá, os indiferentes aos partidos cresceram 11 pontos percentuais. A parcela ínfima dos eleitores com vínculos partidários apresenta disparidade muito grande entre os simpatizantes. Pelas informações eleitorais, 16% dos eleitores se declaram simpatizantes do Partido dos Trabalhadores (PT). Isto não traduz filiação partidária nem engajamento em campanhas políticas.
Com o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), os partidários da legenda são 4% dos eleitores. O PMDB é lembrado por apenas 2%. Quando o levantamento detalha a proximidade do eleitor com as legendas, a reação esboçada é muito mais limitada.
O PT recebe a seguinte avaliação: no universo de 41% dos simpatizantes, 34% têm opinião favorável à legenda. Entre o grupo alinhado com a agremiação, 7% se manifestam muito favorável à legenda; para 35%, a imagem sobre o partido é desfavorável; 11% julgam-na muito desfavorável. Outro grupo, composto por 13% de partidários da legenda, não respondeu à enquete. No cômputo da pesquisa, há eleitores com imagem negativa em maior quantidade do que com a ideia positiva.
Quanto ao PSDB, a situação não é muito diferente. Entre os partidários com opinião explicitada, 36% disseram ter imagem favorável à agremiação, dividida do seguinte modo: 5% muito favorável e 31% favorável. De outra parte, 45% alimentam imagem negativa, bipartida do seguinte modo: 35% com imagem desfavorável do PSDB e 10% muito desfavorável. Na consulta aos seguidores da legenda, 19% não responderam.
Outra questão muito grave diz respeito ao grupo responsável pelos sufrágios em brancos, nulos e pelos que se ausentam das urnas. Os votos brancos e nulos giram em torno de 10%, enquanto o absenteísmo tem superado a marca dos 20%; portanto, cerca de um terço do eleitorado. A fragilidade do sistema partidário pode ser constatada também por essa percentagem alta, considerando a obrigatoriedade do voto.
A presidente da República, reeleita, anunciou durante a sua primeira manifestação depois da proclamação do resultado do segundo turno, o propósito de promover uma série de reformas estruturais no País, enfatizando, entre as prioritárias, a reforma política. Declarou que é seu compromisso "deflagrar essa reforma", mobilizando a sociedade para uma consulta popular através do plebiscito.
Dos 32 partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral, somente 28 conseguiram eleger representações no Congresso Nacional. Com certeza, poucos terão objetivos comuns em torno das mudanças pretendidas. Por isso, maiores serão as divergências do que as convergências. No entanto, se há um projeto que não pode mais ser adiado, sob risco de comprometer a estabilidade institucional, é a reforma política.
(Diário do Nordeste)
Fonte: Diário do Nordeste
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