
Nem Jair Bolsonaro (PSL) nem Fernando Haddad (PT) são candidatos ao feitio do chamado establishment. A se confirmar este segundo turno, será algo sem precedente: o mercado ter de escolher entre opções pouco ao seu feitio. Sempre houve algum candidato que dava segurança aos donos do dinheiro e do poder. Neste ano, este cara não é nem Bolsonaro nem Haddad. Ainda assim, o "andar de cima" já vinha se conformando a ter de escolher entre um e outro. Mas o Datafolha ontem abriu outra perspectiva.
Os números do começo da semana mostraram Haddad subindo e se distanciando de Ciro. Os da madrugada de ontem mostraram, sim, alta do petista. Apresentaram o pedetista estagnado. Mas ainda havia empate técnico. Foi pouco. A situação de Ciro não é boa. Está parado e vê o crescimento de adversário com mais tempo de rádio e televisão, mais apoio entre governadores, menos conhecido por ora e com menos tempo de campanha até aqui. A pesquisa não chegou a ser a sinalização de que Ciro ruma para o segundo turno. Não indicou, nem ao longe, a formação de uma onda Ciro. As tendências são todas iguais. Mas há o alento para quem não quer Bolsonaro x Haddad. Resta um empate técnico.
Foi o bastante para mover cenários. E fazer as forças que não são PT nem PSDB se moverem para dar balão de oxigênio para Ciro e tentar torná-lo viável.
Um dos movimentos mais simbólicos do establishment em direção a Ciro veio na capa da revista Época. A publicação circula às sextas-feiras, mas foi antecipada para ontem. O assunto: Ciro Gomes, "entre o antipetismo e o antibolsonarismo". Uma busca de opção.
Irônico que parta de veículo do Grupo Globo, que iniciou a campanha hostil a Bolsonaro. Como escrevi três colunas atrás, o pedetista se tornou, também, alguém que não cai no gosto dos tradicionais círculos de poder. Ele era, ao início da campanha, alguém a ser batido para dar passagem, talvez, a Geraldo Alckmin (PSDB). Não era alguém que inspirava a maior da confiança aos mercados.
Porém, a simpatia veio por oposição. Na comparação com Bolsonaro e Haddad, ele se torna um bálsamo para os mercados.
Ao longo do dia de ontem, foram vários movimentos na direção de Ciro. Um desavisado imaginaria até que ele deu um salto descomunal. Quando cresceu na verdade zero. Nadinha. Está onde estava. Na pesquisa passada, estava rigorosamente empatado com Haddad, o competidor direto da vez. Nessa, o petista abriu três pontos de frente. E a empolgação envolve quem ficou para trás.
Há motivo: o cenário é ruim, mas pior era o que mostraram Ibope e MDA, na terça e na segunda-feira, respectivamente. O Datafolha não mostrou avanço, mas deu sobrevida. No momento, é o que resta para quem não quer nem Bolsonaro nem Haddad.
O problema pode ser Ciro
Ciro ganha sobrevida para o que pode ser uma última oportunidade de chegar à Presidência. É provável que jamais volte a ter condições como de agora. Mas ele mesmo periga se atrapalhar.
Esse respiro ocorre dias depois do entrevero em Roraima. Ciro ficou irritado com pergunta durante entrevista coletiva. Ficou possesso, xingou a mãe do outro e disse que não era jornalista, mas alguém a serviço do Romero Jucá (MDB). Pode ser. Ocorre que o cidadão fez pergunta pertinente, com base em declaração forte que Ciro de fato deu. E que tinha contexto. Ciro poderia explicar.
O cara estava lá mesmo para provocar e conseguiu o que queria. Esse tipo de coisa é previsível e surpreende que Ciro não esteja preparado. Pode botar a perder.
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Comentários
Alfredo jr
22/09/2018 16:12
Bobagem essa de querer rotular o Ciro com essa história de que é "grosseiro". Fosse por isso, as loucuras e estultícies de Bolsonaro teriam impedidobele de liderar as pesquisas.