Uma das histórias que este redator mais teve prazer de contar, enquanto jornalista, foi a dos médicos cubanos que chegaram em Caxias em dezembro de 2013 para trabalhar no ‘Mais Médicos’ – o programa firmado pelo governo federal brasileiro com o governo cubano. O que era para ser um vt apenas, virou uma série de cinco reportagens – exibida até em eventos internacionais pelo Ministério da Saúde e pelo próprio Governo de Cuba (veja um dos episódios no vídeo acima).
Era abril de 2015 este redator e o repórter cinematográfico da TV Sinal Verde (Caxias/MA) – à época afiliada à Rede Record –, Ednaldo Nascimento, acompanharam o trabalho desses profissionais durante uma semana. Imagens e depoimentos que este repórter jamais esquecerá. Ações que trouxeram dignidade à incontável número de famílias carentes, esquecidas na imensidão da zona rural do município – e ajudaram a salvar milhares de vidas.
Em 2013 Caxias viveu o seu pior pesadelo na saúde pública, quando centenas de bebês morreram na Maternidade Carmosina Coutinho – a maioria devido às precárias condições de saúde das parturientes – muitas delas, aliás, também perderam a vida na sala de parto – e à falta de um acompanhamento que se pudesse chamar de pré-natal. A maioria dessas parturientes morava nos rincões de municípios paupérrimos e vinha dar à luz em Caxias, já em situação deplorável. A taxa de mortalidade infantil explodiu, as mortes viraram pauta nacional e a oposição local explorou à exaustão, sem dó e sem piedade das famílias vitimadas pela tragédia.
Sem qualquer apoio do governo estadual da época – leia-se Roseana Sarney – restou ao então prefeito Leo Coutinho pedir socorro ao Ministério da Saúde. Firmou-se o convênio através do programa ‘Mais Médicos’ e uma brigada de treze médicos cubanos foi enviada para Caxias no final de 2013. Um ano após o início do ‘Mais Médicos’ a realidade era outra, a mortalidade infantil despencou no município. Com a eleição do governador Flávio Dino, em 2014, já a partir do primeiro semestre de 2015 os recursos, antes contingenciados pelo Estado, retornaram à normalidade, convênios foram reestabelecidos, e a Carmosina Coutinho voltou a registrar níveis aceitáveis de mortalidade infantil.
O que as lentes da reportagem registraram foi incrível. A cultura do médico cubano difere em proporções amazônicas daquela que o brasileiro está acostumado. Sem nenhum demérito para os profissionais tupiniquins, mas o cubano é diferenciado. Mais humanizado, o médico cubano gosta de interagir com seus pacientes, busca construir uma relação de intimidade. E vai aonde é preciso ir, independente de distância ou condições de trabalho. Ao médico cubano – com todo respeito ao médico brasileiro – um estetoscópio é suficiente para bem atender seu paciente.
Diferente daquilo que imagina o presidente eleito Jair Bolsonaro e seus conselheiros mais próximos, os médicos cubanos não se sentem ultrajados por não embolsarem a totalidade de R$ 10 mil inerente a cada profissional que serve ao ‘Mais Médicos’. O casal Wilfredo e Beatriz – ambos cubanos e médicos com larga experiência internacional em programas firmados pelo governo de Cuba – explicou a este redator que o advento do ‘Mais Médicos’ no Brasil possibilitou que o salário dos profissionais da saúde (médicos e enfermeiros) que ficaram em Cuba fosse triplicado. Para eles, os cubanos, isso era tudo – o que mostra a diferença da cultura deles para a nossa. Brasileiro de qualquer profissão, não somente médico, é mesquinho, só pensa no próprio umbigo, o restante que se lasque.
Também não é verdade que os médicos cubanos que vieram ao Brasil pelo ‘Mais Médicos’ estavam impedidos de trazer os seus filhos. Nada a ver. A pedido de Wilfredo e Beatriz, este redator – que além de jornalista é advogado – iniciou, junto à embaixada de Cuba no Brasil, o processo de autorização para que os dois filhos, a nora e o neto do casal viessem passar uma temporada pelas bandas de cá. O pedido foi prontamente acolhido e a família apenas não veio porque tão logo assumiu a Presidência da República, numa de suas primeiras medidas, Michel Temer tolheu o programa ‘Mais Médicos’. Razão pela qual nossos amigos cubanos – que viraram membros da família – tiveram de ir embora.
Agora o presidente eleito dá o golpe final. O fim do ‘Mais Médicos’ não vai abrir espaço para o profissional brasileiro da medicina. O médico cubano não estava aqui para competir ou usurpar o lugar do médico brasileiro. E nem os profissionais tupiniquins passarão a ganhar mais doravante. As famílias brasileiras que bravamente subsistem nos mais distantes e esquecidos rincões é que vão pagar o pato. Que pena.
Em tempo
O presidente eleito Jair Bolsanaro já voltou atrás em alguns passos em falso que ele deu nessa fase pós-eleição. Este redator torce, sinceramente, para que ele repense as agressões desnecessárias ao governo de Cuba e busque reestabelecer o ‘Mais Médicos’, para o bem da nossa gente mais sofrida.
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