Há uma indisfarçável, evidente e profunda mudança na postura do ex-juiz Sérgio Moro (foto), depois que deixou a magistratura para virar futuro ministro. Quando estava juiz federal, lá em Curitiba, o então magistrado era considerado o terror dos políticos corruptos. No Congresso Nacional, deputados e senadores de todas as cores e correntes fugiam de dele como o diabo foge da cruz – temiam perder o foro privilegiado e cair nas mãos do Moro. À frente da Lava-Jato, o cara era implacável nos seus veredictos. Alguns dos mais renomados advogados do país diziam que a operação era inquisitória, por atropelar direitos e garantias constitucionais inerentes ao Estado Democrático de Direito.
Mas eis que, agora, depois que virou futuro ministro e figura de proa no governo de transição, Sérgio Moro mudou radicalmente. De implacável capitão do mato de figurões acusados de corrupção, virou mosqueteiro de seus colegas de agora, como o indefectível Onyx Lorenzoni, por exemplo – deputado federal investigado por corrupção, e personagem de dois enredos de caixa dois da JBS.
Num desses enredos, aliás, ele confessou ter recebido por baixo dos panos R$ 100 mil em 2014. Pediu desculpas. Noutro, que teria ocorrido em 2012, mas que somente veio à tona no derradeiro fim de semana, Onyx nega o recebimento de mais R$ 100 mil. A procuradora-geral da República Raquel Dodge pediu ao Supremo Tribunal Federal autorização para investigar a suspeita num procedimento de pré-inquérito, com base em delações de executivos do grupo JBS. O ministro Edson Fachin, relator da Lava-Jato, já autorizou.
O agora futuro ministro de Estado e ex-juiz federal Sérgio Moro limitou-se a dizer que “o Onyx dispõe da minha confiança pessoal!".
Mudou muito, hein?!
Nem o presidente eleito foi tão enfático na defesa de seu subordinado. Perguntado se mantinha a confiança integral no futuro ministro, Bolsonaro saiu-se com uma de suas pérolas. "Cem por cento, ninguém; 100% só confio no meu pai e na minha mãe."
Ruim para nós, brasileiros, que adoramos um Dom Quixote. É, brasileiro passa a vida inteira à espera de um Dom Quixote que tire o Brasil do atraso, acabe com a corrupção e melhore a vida de todo mundo... O problema é que Dom Quixote, de verdade, só existe na literatura.
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Comentários
Ribamar Rodrigues
05/12/2018 09:40
Parafraseando o filósofo Focault, "o discurso muda conforme os interesses".