Ricardo Marques

Carnaval estuprado

Publicado: 17/02/2023 17:39 - Atualizado em 17/02/2023 18:16 - 0 comentário


Compartilhe:


AZIZ JUNIOR_CARNAVAL_17-02-23

POR AZIZ JÚNIOR 

O anunciado maior Carnaval do Maranhão nada tem a ver com as verdadeiras tradições do famoso carnaval de São Luís. Para os que não sabem, e ocupam postos de relevo nos governos estaduais e municipais na área da cultura, é bom que se diga que o nosso carnaval contribui para reafirmar a tradicionalidade, ao mesmo tempo em que lembra, reinventa, traz significações e ressignificações constantes de uma cultura viva, em movimento, a partir dos grupos sociais locais.

O privilégio de brincar a especificidade do Carnaval maranhense ainda engloba a vivência de muitas outras particularidades expressivas da cultura e patrimônios culturais imateriais, como é o caso do Tambor de Crioula, e, também de um samba maranhense característico, com qualidade musical diversa do padrão hegemônico do Rio de Janeiro e São Paulo, sendo um samba mais curto, por vezes irreverente, com a genialidade de compositores, como Cristóvão Colombo, Patativa, Joãozinho Ribeiro, Josias Sobrinho, César Teixeira, o “Mestre” Antônio Vieira e Lopes Bogéa, que retratam, de maneira simples e despretensiosa, o cotidiano do maranhense e as coisas belas e simples que a vida nessa Ilha oferece.

Esse espírito da tradicionalidade, diversidade e ressignificação da interação entre personagens e alegorias do carnaval maranhense, imersos nessa “Cidade Patrimônio”, fortalece a potência articuladora das relações sociais e culturais, contribuindo para que os munícipes, brincantes e, até mesmo, turistas tenham uma experiência marcante e única de sociabilidade festiva, com significados culturais de um carnaval ímpar.

No carnaval, a força viva dos sambas, ritmos, danças e musicalidades maranhenses traz uma performance temporal, com significados amplos aos patrimônios culturais em interação, assumindo novas faces e funções. A importância do elo com o “passado”, bem como a ideia de sua singularidade, permanece nessa nova forma de “patrimônio”. Contudo, sua singularidade tradicional é preservada pela “recriação na contemporaneidade” e não por uma permanência estática. Desta forma, paradoxalmente, ou numa dança circular do tempo, o “passado” recriado parece trazer personagens e símbolos para o agora. Estes saltam para o presente e parecem até situar-se fora do tempo, propondo-se durar para sempre com a identidade tradicional.

No caso do carnaval em São Luís, a festa e a manifestação cultural despertam uma explosão de sentimentos, atualizando-se, ano após ano, e encantando ainda mais ludovicenses, brasileiros, estrangeiros, turistas e brincantes. Poucas festividades nacionais apresentam tamanha visibilidade e sentido de identidade regional e nacional, reafirmando sujeitos e possibilitando a sociabilidade entre os diversos grupos culturais e classes socioeconômicas. O carnaval em São Luís coloca patrimônios materiais e imateriais em folia. É sinônimo de história, inovação e tradição; é um carnaval de encontros, fontes de renda e, principalmente, de prazer para amantes da folia. Como diria Graciliano Ramos, “se a única coisa que o homem terá certeza é a morte; a única certeza do brasileiro é o carnaval no próximo ano”.

Como diz o mestre Joãozinho Ribeiro, os turistas não vêm para o Carnaval de São Luís para ver Zé Vaqueiro, Klessinha, Maiara & Maraísa etc. E mais: por conta desses gastos inverossímeis deixamos de ter a tradicional Escola Turma do Quinto de fora da Passarela, deixando de homenagear um dos ícones da cultura maranhense, Josias Sobrinho.

De forma bem específica, como integrante do Bloco Serpentina, com 7 anos de folia pelas ruas de São Luís, contribuindo para reviver as nossas melhores tradições carnavalescas, nenhum recurso financeiro obteve dos poderes públicos.

Finalizo com uns versos do poeta Joãozinho Ribeiro, feitos para o Bloco Serpentina:

“No Ribeirão, beirão, beirão, beirão

Quero ver, quero ver a serpente acordar

Pra espantar o cordão dos puxa-sacos

Que vão engolindo sapos, sem ter o que reclamar.”

APESAR DELES, bom carnaval a todos.

*Compositor e músico

Deixe seu comentário aqui

Verificação de segurança

Comentários


Nenhum comentário foi encontrado, seja o primeiro a comentar!