Ricardo Marques

Há dias em que nada me tira do sério

Por: Ricardo Marques | Publicado: 10/07/2015 06:49 - Atualizado em 10/07/2015 00:00 - 0 comentário


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Sabe aqueles dias em que nada te tira do sério? Pois é, aquele era um desses... Após reverter os rumos de uma audiência que se apresentava desfavorável às pretensões de meu constituinte, pois as circunstâncias do fato e a ausência de testemunhas de defesa atentavam contra ele, eu estava lá, no “Espaço da Cidadania”, em Teresina (PI), atrás de receber o documento de licenciamento 2015 de meu carro, que eu havia pagado pela internet.

 

O local lá não é nenhuma Brastemp, mas é “tolerável”. Tirante o banheiro, que é imundo.

 

Cheguei por volta das 15h30 e a movimentação era tranquila. Peguei a senha de atendimento para o posto do Detran-PI e me dirigi ao setor de espera. Bem-humorado, sentei-me pacientemente numa das cadeiras e passei a me concentrar nas redes sociais, via celular.

 

Foi então que ouvi um dos seguranças orientar outro usuário, a fim de ele saber de antemão se o documento do carro dele ainda estaria lá, no Detran-PI do Espaço da Cidadania, ou se já tivera sido enviado pelo correio. Assim o homem não perderia seu tempo, conforme explicou o moço da segurança.

 

Aproveitei a deixa e me instruí com o moço da segurança. Que prontamente também me atendeu na maior simpatia. Disse para eu perguntar “no protocolo ao lado, se meu licenciamento estava lá.”.

 

No setor de protocolo do Detran-PI, uma senhora, aparentando ter entre 55  e 60 anos de idade, me atendeu com um sorriso largo. Educadamente, explicou que o meu documento em questão “ainda estava lá”, e que eu tirasse cópia do CPF ou da carteira de motorista, pois, ser-me-ia exigido para a expedição do documento.

 

Pelas contas, ainda ia demorar muito até eu ser atendido. Minha senha era “DET-301”, normal. Naquele momento, o painel de controle e chamada indicava “DET-247”. E ainda havia outro tanto de pessoas com prioridade de atendimento: idosos, grávidas, deficientes físicos...

 

Era jogo de paciência... Como eu tivera um dia de grande resultado no Fórum de Teresina, estava de bom humor. Resolvi aguardar sem estresse.

 

Foi aí que ela surgiu do meu lado, saída não sei de onde. Com a senha “DET-399”, prioridade normal - mesmo grupo que o meu -, a mulher perguntou se eu estava ali há muito tempo. Respondi que sim.

 

Mas eis que, de maneira sorrateira, a diaba deu um jeito de burlar a fila e ser atendida antes de mim e de uma penca de outras pessoas, entre homens e mulheres; idosos e gestantes, inclusive.

 

Não demorou e ela saiu. Foi embora levando sobre os ombros a carga de imbecilidade inerente ao caráter dela. O rapaz, sentado na cadeira ao meu lado, não se conteve:

 

- Essa idiota ainda acha que fez uma vantagem danada!

 

Outro mais afobado, falou para todo mundo ouvir:

 

- Ela deve ser daquelas que sai às ruas para protestar contra os maus políticos e ajudar a linchar assaltantes!

 

Em meu canto ouvi calado, sem, no entanto, tirar-lhes a razão.

 

Pra sorte da mal-educada, eu estava num daqueles dias que nada me tira do sério. Aliás, ultimamente, tenho me apoquentado muito pouco com certas coisas que me dão nos nervos. Estou aprendendo que não vale a pena.




Fonte: Ricardo Marques

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