Ricardo Marques

O filho de Eduardo Campos

Por: Ricardo Marques | Publicado: 13/08/2015 07:47 - Atualizado em 13/08/2015 00:00 - 0 comentário


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Ninguém sentiu tanto quanto eu aquela foto (acima) de um dos filhos do Eduardo Campos agarrado ao caixão do pai, vítima de um acidente aéreo há exato um ano, em plena campanha presidencial. Já deveria, inclusive, ter escrito sobre isto. Faltaram-me tempo e, sobretudo, ânimo. Às vezes não é fácil extrair coisas de lá, do fundo da alma. Há feridas, mesmo aquelas que pensamos estarem definitivamente cicatrizadas, que devemos evitar tocá-las, pois de uma hora para outra ainda podem sangrar por dentro. É o caso.

 

Assim como aquele garoto, também perdi meu pai em um fatídico acidente aéreo. Na época, eu tinha seis anos. Mais ou menos a mesma idade do menino. O pai dele era jovem, 49 anos. Meu pai mais ainda, apenas 30.

 

Aquele olhar perdido, flagrado na cena, já foi meu também. Algumas coisas não saem jamais da memória da gente, sobretudo as trágicas.

 

Lembro que era madrugada quando um primo meu chegou à nossa casa para dar a notícia. Nós morávamos em Teresina (PI). Meu pai saíra cedinho. No bimotor – ou monomotor, não lembro –, apenas ele e o piloto, que também era cearense e igualmente trabalhava para o Governo do Estado do Piauí – primeiro governo do saudoso Alberto Silva.

 

Os dois deveriam ter chegado a Parnaíba no início da manhã daquele dia 8 de abril de 1973 – a seis dias do aniversário de meu pai.

 

O avião perdeu contato com a torre. Depois se confirmou aquilo que já suspeitavam: a aeronave caíra na cidade de Buriti dos Lopes, distante cerca de 300 km da capital piauiense.

 

Lembro que naquela madrugada – quando meu primo chegara à nossa casa – chovia torrencialmente. As chuvas em Teresina eram marcadas por fortes ventanias, relâmpagos que clareavam feito luz incandescente e trovoadas que faziam a terra tremer. Não me recordo o que o nosso mensageiro disse exatamente. Lembro que ele foi cauteloso e que demorou a dar a fatídica notícia. Eu estava em um daqueles cercados para bebês com meu irmão caçula – que na época tinha nove meses. Lembro ainda que o abracei e chorei.

 

Diferentemente do filho de Eduardo Campos, não pude abraçar o caixão de meu pai. Lembro que aguardamos, às margens da rodovia, a chegada do carro que trazia os caixões lacrados. Os corpos estavam carbonizados. Nem minha mãe pôde vê-los.

 

Tomara que os filhos de Eduardo tenham avós tão generosos, pacientes e amáveis quanto o pai-avô e a mãe-vó que nós tivemos.



Fonte: Ricardo Marques

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