Ricardo Marques

O editorial do NYT e o historiador

Por: Assessoria de Imprena | Publicado: 20/08/2015 09:04 - Atualizado em 31/12/1969 21:00 - 0 comentário


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Por Fábio Campos

 

Há avaliações para todos os gostos no mais recente editorial do New York Times que tratou do Brasil. O ponto que ganhou mais relevo foi o seguinte: “Até agora, as investigações (da Lava Jato) não encontraram provas de atos ilegais de sua parte. E embora (a presidente Dilma) Rousseff seja sem dúvida responsável pelas políticas e grande parte da má administração que derrubaram a economia brasileira, estas não são ofensas que levem a um impeachment”.

 

Parece ser esse o pensamento majoritário das forças partidárias que atuam no âmbito institucional. Inclua-se nesse rol o PSDB, o partido que, embora de baixa influência no País, encarna a oposição. O fato é que, como aponta o editorial, “até agora” não há elementos capazes de sustentar o impeachment da presidente.

 

Outros pontos do editorial: “O Brasil está em frangalhos. A economia enfrenta uma recessão que se aprofunda... um enorme escândalo de corrupção ligado à Petrobras envolveu dezenas de políticos e empresários. O Legislativo está em revolta. O índice de popularidade da presidente, menos de um ano após sua reeleição, caiu para apenas um dígito, e protestos em todo o país no domingo reverberaram com pedidos de impeachment”.

 

O texto é uma correta análise da conjuntura. Porém, um ponto que se perdeu no chafurdo entre os prós e os contras é o seguinte: “Em toda essa turbulência, é fácil não ver a boa notícia: a força das instituições democráticas brasileiras”. Ao elogiar o andamento das investigações, o editorial ressalta que isso ocorre mesmo com o “golpe na forte cultura de impunidade” do Brasil.

 

Parece não haver dúvidas que se trata de um histórico divisor de águas. E tudo ocorre sem sobressaltos institucionais. E apostem: nem possíveis (ou prováveis) novos desdobramentos da Operação lava Jato vão abalar as instituições. A propósito, reportagem do mesmo jornal em novembro do ano passado tratou o Petrolão como o maior caso de corrupção em país democrático na história do mundo moderno.

 

Esta semana, o jornalista Gabriel Manzano assinou entrevista com o historiador José Murilo de Carvalho e fez a seguinte pergunta: “Que comparação o senhor faz entre essa crise e outras de nossa História?”. Resposta: “Se caracterizarmos crise como coincidência de corrupção, estagnação econômica, chefe de Estado impopular e acuado politicamente, é possível sim, até onde alcança minha memória, lembrar as crises de 1954, 1964 e 1992”.

 

Prossegue o historiador: “Em 1954, pela têmpera moral do presidente (Getúlio Vargas), tudo terminou em tragédia. Em 1964, poderia também ter terminado em tragédia pessoal e nacional, com guerra civil, não fosse pela pequena disposição de luta do presidente (João Goulart). Em 1992, tivemos uma opereta (com Fernando Collor)”.

 

Por fim: “Hoje, por enquanto, temos um drama sem nenhuma grandeza, sem que se possa adivinhar o desenlace. A importante diferença entre as duas primeiras crises e as duas últimas é que nestas está ausente o pretorianismo, cabendo às forças civis se responsabilizarem totalmente pelo resultado”.

 

Murilo reconhece que as instituições da democracia se mantêm fortes, mas faz ponderações: “Temos um Executivo paralisado por incompetência e arrogância de sua chefe, um Congresso irresponsável, um partido do governo desmoralizado pelas denúncias de corrupção e uma oposição oportunista. Não é bom. Estamos ainda longe de uma república democrática sustentável”.

 

*Jornalista



Fonte: Assessoria de Imprena

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