Ricardo Marques

O que o leitor quer: notícias boas ou ruins?

Publicado: 13/10/2015 08:50 - Atualizado em 13/10/2015 00:00 - 0 comentário


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O PÚBLICO PODE DIZER QUE NÃO QUER OS DETALHES SÓRDIDOS; os números de audiência dirão que o público está mentindo  


Por Plínio Bertolotti

 

Pergunte, ou faça uma pesquisa, e um número significativo de leitores, senão a maioria, dirá que não aguenta mais ver “más notícias” ou tragédias e mortes nos jornais, afirmando buscar “boas notícias” nos meios que escolhem para ler. Chegou ao ponto de alguns veículos criarem a seção “boa notícia” para atender a esse público supostamente majoritário. Além disso, surgiram algumas agências especializadas em notícias positivas, sem nenhum tipo de informação sobre violência em seus boletins.

 

Qualquer pesquisa também vai mostrar que as “notícias policiais” estão entre os últimos conteúdos citados quando se pergunta o tipo de matérias que o leitor busca para se informar. Normalmente, aparecem nos primeiros lugares “notícias locais”, “notícias nacionais”. Até os temas “economia” e “política” costumam ficar à frente da cobertura policial.

 

Porém, confrontemos com a realidade. Buscando “notícias mais lidas” no Google cheguei aleatoriamente a um grande portal na internet, com as notícias mais lidas, em 1º/10/2015:

 

1. Polícia investiga vazamento de fotos de jovem encontrada morta em hotel. 

 

2. Cantor posta fotos e é multado por apologia a abate de bichos silvestres.

 

3. Nasa e ESA detalham missão para tentar desviar rota de asteroide.

 

4. “Me senti estuprada”, diz mulher de Stênio Garcia sobre fotos vazadas.

 

5. “Tentamos 4 vezes e ainda não temos o carro de R$ 30 mil”, diz Chevrolet.

Fui ao portal O POVO Online, semana de 26/9 a 2/10/2015:

 

1. “Nudes” de Stênio Garcia e mulher rendem “memes” no Twitter.

 

2. Homem é executado em cruzamento da Via Expressa.

 

3. Quarteto envolvido em crimes no Ceará grava vídeo ostentando armas pesadas.

 

4. PM e motociclista morrem em acidente na BR-116.

 

5. Eclipse e superlua: entenda os fenômenos que tomam o céu.

 

Ou seja, prevalece a violência entre as mais lidas, juntamente com o chamado (pelos teóricos da comunicação) fait divers, expressão francesa que designa “fatos diversos”: casos pitorescos, notícias sobre “personalidades”, entre outras banalidades. Fato é que a amostra é muito pequena, porém, não creio que haveria grande mudança se o recorte fosse ampliado. Além disso, é preciso considerar a audiência brutal dos “programas policiais” que medram nas rádios e TVs.

 

A respeito do último tiroteio ocorrido em uma escola nos Estados Unidos, no estado do Oregon, que deixou pelo menos nove mortos, o jornalista americano Barry Petchesky escreveu:

 

“O público pode dizer que não quer os detalhes sórdidos; os números de audiência dirão que o público está mentindo. (...) o amplo e voraz consumo de breaking news [últimas notícias, que interrompem transmissão normal] e a tendência de que esse tipo de notícia se espalhe rapidamente apontam para o contrário. O público, certamente, irá ligar na CNN enquanto a notícia estiver em desenvolvimento, e então falará mal de repórteres que especulam o que pode ter acontecido, porque os fatos ainda não são claros, e em seguida trocará de canal para ver se outra emissora está noticiando algum fato novo”.

 

O mesmo pode ser dito no Brasil, quando um criminoso mantém um refém em cárcere privado e a TV acompanha o caso ao vivo, como se fosse uma novela. Ou em outros crimes bárbaros, nos quais a curiosidade mórbida do público é atendida pelos noticiosos nos mínimos detalhes. 

 

São os meios de comunicação que impõem essa pauta ou ela é resultado da exigência do público? 

 

Pesquisa


Se o público gosta de ler, ver e ouvir notícias sobre violência, porque as pesquisas não captam essa tendência? As pessoas teriam vergonha de dizer que são capturadas ou têm preferência por esse tipo de informação?

 

Ética

 

É legítimo que os meios de comunicação estimulem a propagação da violência somente com o objetivo de obter audiência? Porém, reconhecendo que é obrigação dos jornais publicarem também esse tipo de notícia, como fazê-lo de modo ético?

 

Crédito

 

O trecho do artigo do jornalista Barry Petchesky, reproduzido acima, pesquei de texto de Moreno Osório, no Farol do Jornalismo: http://migre.me/rHLZi.

 

*Jornalista

 

 

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