POR RICARDO MARQUES
Há algo de profundamente simbólico — quase trágico — quando uma ministra do próprio Supremo admite, ainda que nas entrelinhas, que a casa precisa mudar. Não é a oposição, não é a rua, não é a imprensa. É alguém de dentro dizendo: “não pode ficar como está”.
E isso diz muito.
O Supremo Tribunal Federal, que deveria ser o altar da Constituição, virou personagem. E personagem, meus amigos, envelhece mal quando passa a disputar aplausos — ou a temer vaias.
A fala da ministra Cármen Lúcia não é apenas um pedido por transparência. É um diagnóstico. Um desabafo institucional. Um reconhecimento de que há um ruído — e ruído alto — entre o que o tribunal faz e o que o país percebe.
Porque o problema não é só jurídico. É simbólico.
O Supremo, que deveria falar nos autos, passou a falar demais fora deles. E quando a palavra se banaliza, a autoridade também se desgasta.
E aí nasce o paradoxo: quanto mais poder o tribunal exerce, mais precisa de confiança. E quanto mais se afasta da confiança, mais esse poder parece arbitrário.
Não é uma crise de competência. É uma crise de credibilidade.
E credibilidade não se decreta — se conquista. Ou se perde.
Talvez por isso a fala da ministra soe quase como um suspiro de realidade: o Brasil que bate à porta do Supremo já não é o mesmo — e o Supremo que se olha no espelho também não.
No fim das contas, o que está em jogo não é apenas a imagem de um tribunal. É a própria ideia de Justiça num país que já não sabe muito bem em quem acreditar.
E quando até dentro da Corte surge a desilusão… é sinal de que o problema deixou de ser externo.
E virou interno.
Veja o comentário em vídeo (aqui)
Fonte: O comentário do dia de Ricardo Marques
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