POR RICARDO MARQUES
Há algo de literário — e perigosamente familiar — no debate político levantado ontem pelos deputados dinistas na Assembleia Legislativa do Maranhão. Um certo ar de distopia. Como se estivéssemos folheando, ao vivo, as páginas de 1984, de George Orwell.
De repente, vozes outrora governistas — hoje recicladas em fiscais da moral pública — apontam, com ar grave, o assassinato de um ex-vereador em Presidente Dutra. Citam relatórios, brandem números, evocam a Comissão Pastoral da Terra como se estivessem revelando um escândalo inédito. Mas omitem — cuidadosamente omitem — que o Maranhão, até pouco tempo, foi palco de uma escalada brutal de mortes no campo, sob o comando daqueles que hoje posam de acusadores.
O curioso é o silêncio sobre o passado recente. Um silêncio quase… institucional. Ou, quem sabe, deliberado.
Apagam-se capítulos incômodos. Reescrevem-se narrativas. Ajustam-se versões — sempre com zelo cirúrgico, como convém aos que tratam a memória como instrumento, não como compromisso.
Quase como se estivéssemos diante de um improvisado “Ministério da Verdade” — aquele que não informa, mas edita; não esclarece, mas seleciona; não busca a verdade, mas oferece a versão politicamente útil.
Porque é preciso lembrar: o Maranhão já viveu — e não faz muito tempo — uma escalada brutal de violência no campo, justamente sob o governo que hoje inspira muitos desses críticos tardios. À época, o discurso era outro. A indignação, bem mais discreta. E a pressão veio de fora — inclusive de setores da própria Igreja, como a CNBB, que manifestou repúdio ao governo por meio de carta, em 3 de novembro de 2021.
Curioso, não?
Antes, a tragédia era “complexa”.
Agora, é “inadmissível”.
Antes, os mortos eram estatística incômoda.
Hoje, são argumento conveniente.
A dor real — de camponeses, ambientalistas, quilombolas — segue sendo instrumentalizada. Nunca como prioridade. Sempre como retórica.
No fim, a pergunta é simples — e incômoda: estamos debatendo a realidade… ou apenas a versão mais conveniente dela?
Porque, no Maranhão de certas narrativas, o passado muda conforme o interesse — e a verdade, essa velha teimosa, vira apenas detalhe.
Veja o comentário em vídeo (aqui)
Fonte: O comentário do dia de Ricardo Marques
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