POR RICARDO MARQUES
A inveja é um dos sentimentos mais antigos — e mais mal resolvidos — da natureza humana. Não nasce da falta, como muitos imaginam. Nasce da comparação.
O invejoso não sofre pelo que não tem.
Sofre pelo que o outro tem.
E isso muda tudo.
Porque, se a inveja fosse apenas fruto da carência, bastaria prosperar para se curar. Mas não é assim. Há ricos que invejam pobres. Há pessoas belas que invejam quem não se encaixa em padrão algum. Há poderosos que invejam quem vive em paz.
Por quê?
Porque a inveja não está no objeto — está no olhar.
Ela brota de uma incapacidade silenciosa:
a de aceitar que o outro encontrou um lugar que, de alguma forma, nós não conseguimos ocupar.
Às vezes é dinheiro. Outras vezes é liberdade.
Outras, ainda, é algo imaterial — leveza, autenticidade, alegria.
E isso incomoda.
O poeta Augusto Branco acerta ao dizer:
“Poucas coisas despertam tanto o lado negativo das pessoas e atraem tanto a inveja humana quanto o sucesso.”
Mas talvez seja preciso ir além: o sucesso não incomoda apenas pelo que mostra — mas pelo que revela.
Ele expõe nossas frustrações.
Escancara nossas omissões.
E, muitas vezes, denuncia aquilo que poderíamos ter sido — mas não fomos.
A inveja, no fundo, é um espelho cruel.
Por isso ela é tão comum — e tão perigosa. Porque, ao invés de inspirar, ela corrói.
Ao invés de impulsionar, paralisa.
O invejoso não cresce: ele vigia.
Não constrói: ele torce contra.
E assim vai se apequenando.
Talvez o antídoto não seja eliminar a comparação — tarefa quase impossível —, mas aprender a interpretá-la.
Trocar a inveja pela admiração.
Substituir o ressentimento pelo reconhecimento.
Porque o sucesso do outro não é uma acusação contra nós.
É, no máximo, um convite.
Convite à reflexão.
Convite à mudança.
Convite à coragem de seguir o próprio caminho — sem medir a própria vida pela régua alheia.
No fim das contas, a inveja diz menos sobre quem é invejado…
e muito mais sobre quem inveja.
Veja o comentário em vídeo (aqui)
Fonte: O comentário do dia de Ricardo Marques
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