Ricardo Marques

O Brasil que ainda chicoteia

Por: O comentário do dia de Ricardo Marques | Publicado: 19/01/2026 07:59 - 0 comentário


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POR RICARDO MARQUES 

O Brasil adora dizer que acabou com a escravidão. Diz isso com a boca cheia, como quem repete um slogan bonito. Mas os números não mentem — e o Maranhão insiste em aparecer neles. Em pleno 2026, trabalho escravo não é passado. É presente. E, pior, é rotina. O Maranhão ocupa o 12º lugar no ranking nacional. Verdade que já estivemos pior; éramos o campeão nacional. Mas ainda estamos em situação vexatória: ano passado foram 59 denúncias e 97 violações de direitos humanos.

Não é mais senzala de fazenda colonial. É a senzala moderna: jornadas exaustivas, fome disfarçada de emprego, dignidade jogada no chão. Gente invisível. Gente barata. Gente descartável. E o Maranhão segue exportando miséria humana como quem exporta soja.

Clarice Lispector contou isso em ‘Viagem à Petrópolis’, publicado em 1964. Mocinha saiu criança do Maranhão para servir em casa de família no Rio. Trabalhou a vida inteira. De sol a sol. Sem domingo e feriado. Envelheceu servindo. E, quando perdeu a serventia, foi abandonada numa calçada, como um móvel velho, como um cachorro cansado. Mocinha não morreu no conto. Ela continua viva — agora em estatística.

O Brasil moderno construiu prédios, celulares, discursos progressistas… mas manteve a alma colonial. Ainda acha normal explorar quem nasce pobre. Ainda chama isso de oportunidade.

Enquanto isso, o poder público finge surpresa. Finge indignação. Finge que não vê. E assim seguimos: um país que anda para frente com os pés fincados no século XIX.

Veja o comentário em vídeo (aqui)



Fonte: O comentário do dia de Ricardo Marques

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