POR RICARDO MARQUES
São Luís sempre teve uma relação íntima com a história, com o passado, com a memória. O problema é quando o passado começa a vazar — literalmente — para o presente. Nossos cemitérios públicos, nove ao todo, funcionam há décadas sem licença ambiental. Desde 2003, repito: desde 2003. É como dirigir um ônibus escolar sem freio e fingir surpresa quando ele bate no muro.
Enquanto autoridades recorrem à Justiça, o necrochorume — esse líquido nada poético da decomposição humana — escorre sem controle, infiltrando-se no solo, ameaçando o lençol freático e, por tabela, a água que chega às nossas casas. É a morte administrada com descaso, a decomposição elevada à política pública.
A concessionária segue operando mesmo com contrato vencido. A prefeitura faz cara de paisagem. Auditorias alertaram, a Justiça condenou, especialistas gritaram. Nada. Nem impermeabilização do solo, nem monitoramento ambiental, nem respeito às regras do Conama — o Conselho Nacional do Meio Ambiente —, que não são sugestões filosóficas, mas obrigações legais.
Em São Luís, parece que até os mortos são tratados como problema menor. Aqui, nem a morte descansa em paz — apodrece na burocracia, contamina o subsolo e expõe uma gestão que enterra responsabilidades junto com os corpos.
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Fonte: O comentário do dia de Ricardo Marques
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