POR RICARDO MARQUES
Quando o presidente do STF, Edson Fachin, encurta o recesso, algo foge do roteiro sonolento de Brasília. Não é súbito amor ao expediente. É urgência institucional. A necessidade de discutir a permanência do ministro Dias Toffoli à frente do inquérito do Banco Master surge como uma dessas raras boas notícias que não vêm acompanhadas de um “mas” constrangedor. É, sim, uma luz no fim do túnel — e, convenhamos, não parece ser o farol de um trem vindo em nossa direção.
Observadores atentos da cena judiciária apontam o elefante no plenário: conflito de interesses não é tecnicalidade jurídica, é vício moral. Quando o juiz vira personagem da própria narrativa que conduz, a Justiça tropeça na toga e cai de cara no descrédito. Fachin parece tentar lembrar ao Supremo que ele não é o Olimpo, habitado por deuses vitalícios e infalíveis, mas uma instituição republicana, sujeita a limites e regras.
E aqui está o ponto mais sensível: a tentativa de criar um código de ética específico para ministros do STF. Se avançar e for aplicado de forma efetiva, pode se tornar um marco histórico. Algo quase revolucionário para uma corte que, há décadas, se vê como intocável, imune a constrangimentos éticos mais claros.
A analogia mitológica é inevitável. Como Diógenes, que caminhava com uma lanterna acesa em pleno dia à procura de um homem honesto, Fachin parece circular pelos corredores do Supremo em busca de algo ainda mais raro: autorregulação. Uma tarefa hercúlea num ambiente em que muitos ainda se imaginam acima do bem, do mal — e do espelho.
Se essa iniciativa prosperar, não será redenção. Será apenas o mínimo civilizatório. E, no Brasil de hoje, o mínimo já beira o heroísmo.
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Fonte: O comentário do dia de Ricardo Marques
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