POR RICARDO MARQUES
O caso Banco Master, que já parecia uma novela sem último capítulo, agora ganhou ares de tragédia de Nelson Rodrigues. Daquelas em que o problema não é apenas o que aconteceu — é o que estava acontecendo nos bastidores.
As conversas reveladas entre o ministro Dias Toffoli e o banqueiro Daniel Vorcaro não são, por si, uma sentença. Mas são um constrangimento. E, na República, às vezes o constrangimento já é metade da culpa — ou, pelo menos, metade do desgaste.
Num país normal, juiz fala nos autos. No Brasil, os autos parecem falar depois das redes sociais.
A Polícia Federal pediu a suspeição de Toffoli. O ministro refutou, disse que eram só "ilações". Mas teve de deixar o caso; André Mendonça assumiu. Mas não sem antes o Supremo, que deveria ser o altar da liturgia jurídica, virar palco de uma peça em que ninguém quer ser protagonista — mas todos acabam iluminados pelo refletor. Por unanimidade, os ministros afirmaram não haver motivo para suspeição ou impedimento. Como se a relação entre Toffoli e Vorcaro fosse republicana.
Nelson Rodrigues dizia que toda unanimidade é burra. Talvez toda proximidade excessiva entre poder e dinheiro também seja imprudente. Não importa se houve crime; importa que a sombra já se instalou. E, em matéria de Justiça, a sombra é quase sempre mais corrosiva que a própria acusação.
O Brasil não precisa de heróis togados nem de banqueiros incompreendidos. Precisa de distância. Precisa de transparência. Precisa de decoro.
Porque, quando o árbitro começa a conversar demais com um dos jogadores, o público para de acreditar no jogo.
Veja o comentário em vídeo (aqui)
Fonte: O comentário do dia de Ricardo Marques
Deixe seu comentário aqui
Comentários
Nenhum comentário foi encontrado, seja o primeiro a comentar!