POR RICARDO MARQUES
Quando o dinheiro começa a falar mais alto que os fatos, é porque a política já perdeu o pudor.
O relatório do GAECO que envolve o vice-governador Felipe Camarão não é feito de boatos, nem de fofoca de bastidor. É feito de números. De transferências. De vínculos. De indícios que, somados, desenham um quadro no mínimo inquietante.
Um ex-gerente de TI da Seduc, que ocupou cargo público por quase uma década, aparece no centro de um circuito financeiro que teria repassado mais de R$ 330 mil ao vice-governador. Ao mesmo tempo, mantém empresa contratada pelo próprio Estado. Coincidência? Pode até ser. Mas é o tipo de coincidência que exige explicação — e não silêncio.
Outro ponto: um tenente-coronel da Polícia Militar que, com salário formal de cerca de R$ 20 mil, movimenta quase R$ 10 milhões. E mais: paga hospedagem em hotel de luxo para o vice-governador, no Rio de Janeiro, via Pix. Não estamos falando de gentileza. Estamos falando de indícios de custeio de despesas pessoais por terceiros.
E quando subordinados pagam contas de superiores, o nome disso não é amizade. É relação promíscua entre poder e dinheiro.
Como se não bastasse, já tivemos o caso das mensagens de teor misógino e sexista contra a deputada Mical Damasceno, atribuídas a um bate-papo entre o vice-governador e um blogueiro. E aí já não é só uma questão jurídica — é também moral, de postura, de respeito institucional.
O mais grave é que tudo isso não surge no vazio. Felipe Camarão foi peça central de um grupo político que controlou áreas estratégicas do governo por anos. Só a Educação, ele comandou por quase dez anos. E o que se viu, além de números em relatórios, foi a deterioração de equipamentos culturais importantes, como o Centro de Criatividade Odylo Costa Filho — um símbolo da cultura maranhense relegado ao abandono após decisões administrativas equivocadas.
Agora, o problema deixa de ser apenas de gestão e entra no campo penal.
Ninguém aqui está condenando. Não há sentença. Mas há indícios graves — e indício, quando é sério, não se ignora, se explica.
Porque cargo público não é escudo. É responsabilidade.
E quem ocupa o topo da hierarquia precisa entender uma coisa básica: transparência não é favor. É obrigação.
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Fonte: O comentário do dia de Ricardo Marques
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