POR RICARDO MARQUES
O parecer da Procuradoria-Geral da República sobre o caso do Maranhão traz uma lição que vai além da política — e entra no coração do Estado de Direito.
A PGR foi clara: a denúncia narra fatos graves, que merecem apuração. Mas não há, neste momento, prova inequívoca capaz de sustentar uma medida extrema como o afastamento de um governador.
E aqui está o ponto central.
No calor da disputa política, é tentador transformar suspeitas em certezas. Indícios em condenações. Narrativas em sentenças.
Mas o Direito — ao contrário da política — não pode operar assim.
A Procuradoria reconhece, por exemplo, situações alegadas pelos comunistas que podem, em tese, configurar improbidade ou até ilícitos mais graves. Uso de influência política, presença de familiares nos bastidores do poder — tudo isso acende o alerta.
Mas alerta não é prova.
E prova é o que separa a suspeita da sanção.
Há ainda um detalhe revelador: a saída do Solidariedade do polo ativo da ação — ainda lá atrás. Não foi apenas um movimento processual.
Foi um sintoma.
Um gesto que enfraquece a própria narrativa e expõe o risco de que, por trás da tese jurídica, exista apenas estratégia política travestida de indignação.
E isso não é Justiça.
É tática.
O parecer também chama atenção para um risco recorrente no Brasil: transformar instrumentos jurídicos em palco de disputa política. Quando isso acontece, o processo deixa de ser busca da verdade e passa a ser instrumento de combate.
E isso corrói as instituições.
Afastar um governador não é um ato trivial. É uma ruptura institucional de grande impacto — que exige não convicção política, mas certeza jurídica.
Sem isso, abre-se um precedente perigoso: o de que basta o barulho para derrubar mandatos.
E não pode ser assim.
O que o parecer da PGR diz, no fundo, é simples — e incômodo para todos os lados:
Se há irregularidades, que sejam investigadas.
Se há ilícitos, que sejam punidos.
Mas dentro do devido processo, com prova, com rigor, com responsabilidade.
Porque, no Estado de Direito, não basta parecer errado.
É preciso provar.
Veja o comentário em vídeo (aqui)
Fonte: O comentário do dia de Ricardo Marques
Deixe seu comentário aqui
Comentários
Nenhum comentário foi encontrado, seja o primeiro a comentar!