POR RICARDO MARQUES
Há algo de profundamente irônico — e até trágico — no Brasil de hoje: a instituição encarregada de guardar a Constituição passa a ser vista, por muitos, como parte do problema.
O Supremo Tribunal Federal, que deveria inspirar confiança, agora enfrenta uma crise de credibilidade que não nasceu do nada — foi sendo construída, decisão após decisão, gesto após gesto, silêncio após silêncio.
A própria imprensa, como destacou a Revista Veja, aponta números incômodos: segundo o Datafolha, mais da metade dos brasileiros já tomou conhecimento de suspeitas envolvendo ministros. E, em levantamento da Genial/Quaest, uma esmagadora maioria acredita que o STF tem poder demais.
Ora, poder demais… nas mãos de quem não presta contas… costuma dar nisso.
E aí começa o espetáculo.
De um lado, a oposição transforma o tribunal em palanque — como se justiça fosse matéria de campanha. De outro, o governo, liderado por Lula da Silva, percebe o filão político e também entra no jogo. Resultado: o STF vira arena eleitoral.
Mas há um detalhe incômodo — e essencial: quem vigia os vigilantes?
Fala-se em “reforma do Judiciário”. Bonito. Necessário. Urgente.
Mas alguém realmente acredita que essa reforma pode nascer dentro do próprio tribunal?
É como pedir ao privilegiado que vote contra o próprio privilégio.
É como esperar que o sistema abra mão de si mesmo.
Não é ingenuidade — é autoengano.
O problema não é apenas jurídico. É moral. É institucional. É de confiança.
E confiança, quando se perde, não se recompõe com notas oficiais, nem com votos herméticos, nem com discursos técnicos.
Recupera-se com transparência. Com limites. Com responsabilidade.
Ou não se recupera.
E aí, meus amigos, o risco é maior do que parece: quando a sociedade deixa de acreditar na Justiça… ela começa a procurar outras formas de justiça.
E esse, sim, é o verdadeiro perigo.
Veja o comentário em vídeo (aqui)
Fonte: O comentário do dia de Ricardo Marques
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