Ricardo Marques

O progresso da barbárie

Por: O comentário do dia de Ricardo Marques | Publicado: 14/05/2026 09:29 - 0 comentário


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POR RICARDO MARQUES 

O Maranhão assistiu, nos últimos dias, a uma cena que deveria constranger governos, tribunais e autoridades: comunidades tradicionais precisaram criar um tribunal popular para denunciar aquilo que o Estado finge não ver.

É grave.

Quando o povo perde a fé na Justiça oficial, nasce a justiça simbólica.

E isso nunca é um bom sinal.

Quilombolas, quebradeiras de coco, lavradores… gente simples, acuada entre cercas, tratores, veneno e silêncio institucional. Gente denunciando rios contaminados, terras griladas, ameaças, expulsões e assassinatos enquanto o progresso de fachada avança embalado em cifras, soja e discursos bonitos sobre desenvolvimento.

Chamam de agronegócio moderno.

Mas, em muitos lugares, o método ainda lembra os velhos coronéis: ocupa-se a terra, intimida-se o pobre e depois legaliza-se tudo no carimbo.

O mais perturbador é que o tribunal popular não julgou apenas fazendeiros ou empresas.

Sentou no banco dos réus o próprio Estado.

Porque a omissão também mata.

Mata quando a polícia chega para o pequeno com rigor e para o poderoso com cautela.

Mata quando licenças ambientais são concedidas sem ouvir quem vive há séculos na terra.

Mata quando lideranças são assassinadas e os mandantes evaporam na burocracia conveniente deste país.

O Brasil criou uma estranha modernidade:

exporta soja para o mundo…

e importa vergonha para dentro de casa.

No fundo, o que está em disputa não é apenas terra.

É memória.

É pertencimento.

É civilização.

Porque um país que trata seus povos tradicionais como obstáculo econômico talvez já tenha desistido da própria alma.

Veja o comentário em vídeo (aqui)



Fonte: O comentário do dia de Ricardo Marques

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