POR RICARDO MARQUES
O Maranhão assistiu, nos últimos dias, a uma cena que deveria constranger governos, tribunais e autoridades: comunidades tradicionais precisaram criar um tribunal popular para denunciar aquilo que o Estado finge não ver.
É grave.
Quando o povo perde a fé na Justiça oficial, nasce a justiça simbólica.
E isso nunca é um bom sinal.
Quilombolas, quebradeiras de coco, lavradores… gente simples, acuada entre cercas, tratores, veneno e silêncio institucional. Gente denunciando rios contaminados, terras griladas, ameaças, expulsões e assassinatos enquanto o progresso de fachada avança embalado em cifras, soja e discursos bonitos sobre desenvolvimento.
Chamam de agronegócio moderno.
Mas, em muitos lugares, o método ainda lembra os velhos coronéis: ocupa-se a terra, intimida-se o pobre e depois legaliza-se tudo no carimbo.
O mais perturbador é que o tribunal popular não julgou apenas fazendeiros ou empresas.
Sentou no banco dos réus o próprio Estado.
Porque a omissão também mata.
Mata quando a polícia chega para o pequeno com rigor e para o poderoso com cautela.
Mata quando licenças ambientais são concedidas sem ouvir quem vive há séculos na terra.
Mata quando lideranças são assassinadas e os mandantes evaporam na burocracia conveniente deste país.
O Brasil criou uma estranha modernidade:
exporta soja para o mundo…
e importa vergonha para dentro de casa.
No fundo, o que está em disputa não é apenas terra.
É memória.
É pertencimento.
É civilização.
Porque um país que trata seus povos tradicionais como obstáculo econômico talvez já tenha desistido da própria alma.
Veja o comentário em vídeo (aqui)
Fonte: O comentário do dia de Ricardo Marques
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