Ricardo Marques

O banco, o filme e o mito

Por: O comentário do dia de Ricardo Marques | Publicado: 15/05/2026 09:51 - 0 comentário


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POR RICARDO MARQUES 

A direita brasileira passou anos transformando a Lei Rouanet numa espécie de demônio cultural da República.

Para muitos, qualquer filme nacional já vinha automaticamente carimbado como “mamata com dinheiro público”.

Mas há um detalhe curioso — e frequentemente omitido:

pela Lei Rouanet, o dinheiro não sai diretamente do Tesouro.

Funciona, basicamente, por renúncia fiscal.

Empresas e patrocinadores destinam parte do imposto devido para financiar projetos culturais aprovados pelo Ministério da Cultura.

Ou seja:

o empresário escolhe patrocinar.

O governo apenas deixa de arrecadar uma parte do imposto.

Pois bem.

Agora descobrimos que um filme sobre Jair Bolsonaro teria sido financiado não via Rouanet…

mas, segundo reportagens e áudios divulgados, com dinheiro articulado junto ao banqueiro Daniel Vorcaro — personagem hoje associado ao escândalo do Banco Master.

É extraordinário.

Os mesmos que chamavam cineasta de “vagabundo subsidiado” agora aparecem correndo atrás de banqueiro enrolado para produzir épico político familiar.

A direita que gritava contra “artista mamando nas tetas do Estado” agora descobre as maravilhas do mecenato.

Só que em versão Faria Lima, com investigação da Polícia Federal no roteiro.

E convenhamos:

há algo poeticamente brasileiro nisso tudo.

Durante anos, disseram que a esquerda fazia cinema ideológico.

Agora querem lançar “Dark Horse”, uma espécie de “Velozes e Furiosos do golpismo tropical”.

Uma superprodução patriótica bancada no backstage por um banqueiro investigado e enrolado até o talo na maracutaia tupiniquim.

Hollywood jamais escreveria algo tão debochado.

Porque até o roteirista mais criativo acharia exagerado demais.

E há outro detalhe delicioso:

quando o artista progressista captava recursos pela Rouanet, diziam que era dinheiro “do povo”.

Agora, quando empresários privados bancam um filme político de idolatria bolsonarista com dinheiro de picaretagem, aí virou “iniciativa privada”, “liberdade de mercado”, “patrocínio cultural”.

Ou seja:

o problema nunca foi o financiamento.

O problema era o artista não votar neles.

No fundo, a grande tragédia da política brasileira é essa:

ninguém odeia privilégios.

Apenas odeia os privilégios dos outros.

E assim seguimos…

num país onde combater a Rouanet era discurso moral.

Mas pedir milhões a figuras encalacradas na justiça para filmar a própria mitologia familiar virou projeto patriótico.

É Deus, pátria e família!

Veja o comentário em vídeo (aqui)



Fonte: O comentário do dia de Ricardo Marques

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