POR RICARDO MARQUES
A traição sempre intrigou o ser humano — não apenas pelo ato em si, mas pelo abalo moral que ela provoca. Não é só a quebra de um pacto; é a quebra de uma expectativa, de uma confiança, de uma imagem que construímos do outro.
Mas por que as pessoas traem?
Alguns dirão que é desejo. Outros, carência. Há quem aponte o tédio, a vaidade…, a necessidade de afirmação. E há, ainda, os que recorrem à explicação mais confortável — ou mais perigosa: a de que trair faz parte da natureza humana.
A duquesa Úrsula de Bragança Ávila de Serafia — personagem de Débora Bloch em Cordel Encantado — disse uma frase provocativa: “O ciúme é privilégio dos inocentes… é para quem ainda não se deu conta que trair faz parte da natureza humana.”
Bonita. Forte. Mas será verdadeira?
Se a traição fosse apenas natureza, não haveria culpa.
E, no entanto, há.
O ser humano não é só impulso — é também consciência.
Não é só desejo — é também limite.
Trair pode até ser uma possibilidade humana.
Mas nunca foi uma obrigação.
Porque entre o querer e o fazer existe um espaço — e nesse espaço mora o caráter.
A traição, no fundo, revela menos sobre o amor e mais sobre quem trai. É um espelho imperfeito: reflete inseguranças, fraquezas, escolhas mal resolvidas.
E talvez o grande engano da frase da duquesa seja este:
não é o ciúme que pertence aos inocentes —
é a fidelidade que pertence aos conscientes.
Trair não é destino.
É decisão.
E toda decisão tem um preço.
Veja o comentário em vídeo (aqui)
Fonte: O comentário do dia de Ricardo Marques
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