POR RICARDO MARQUES
Sempre achei Lula uma espécie de anti-herói.
O nosso Macunaíma contemporâneo.
O personagem de Mário de Andrade passa longe do herói corajoso, nobre e moralmente exemplar.
É malandro, contraditório, cheio de artimanhas.
O subtítulo da obra anuncia: “o herói sem nenhum caráter”.
Macunaíma muda de forma.
Lula muda de discurso.
E, no palanque, a conveniência parece decidir qual personagem entra em cena.
Antes da urna, Lula dispensou os debates.
Depois da urna, descobriu sua importância.
E agora quer ir ao rádio, conversar mais com o povo.
Uma beleza!
A televisão continua a mesma. O rádio idem.
Quem mudou foi a conveniência.
O debate ganhou utilidade assim que o eleitor perdeu a obediência.
Enquanto isso, setores do PT procuram o culpado pelo resultado do primeiro turno.
Encontraram Sidônio Palmeira, ministro da Secretaria de Comunicação Social.
O detalhe delicioso é que Sidônio defendia a presença de Lula no debate da Globo.
O conselho foi recusado.
A conta chegou ao conselheiro.
É uma autocrítica muito original: examina-se o próprio fracasso até descobrir o erro de outra pessoa.
Sartre escreveu que “o inferno são os outros”.
Na adaptação petista, o inferno são os assessores.
O líder fica no céu.
Eis o ponto em que nosso Macunaíma troca a rede pelo altar.
Para uma parcela de seus seguidores, Lula já não é um político sujeito a cobrança.
É um patrimônio afetivo.
Uma divindade!
Suas contradições recebem explicações;
seus erros encontram procuradores;
suas mudanças de posição ganham o nome de sabedoria.
A coerência é cobrada dos adversários.
Ao líder, basta a esperteza.
Mas eleição tem uma inconveniência: o eleitor pode interromper a missa.
Lula tem todo o direito de disputar, debater e tentar virar o jogo.
O que merece uma boa gargalhada é essa descoberta súbita das virtudes do confronto.
Nosso Macunaíma olhou a urna, ajeitou o paletó e chamou o adversário para conversar.
Mudou a disposição.
Mudou o discurso.
A conveniência continua intacta.
Veja o comentário em vídeo (aqui)
Fonte: O comentário do dia de Ricardo Marques
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