Ricardo Marques

Macunaíma de palanque

Por: O comentário do dia de Ricardo Marques | Publicado: 07/10/2026 08:21 - 0 comentário


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POR RICARDO MARQUES 

Sempre achei Lula uma espécie de anti-herói.

O nosso Macunaíma contemporâneo.

O personagem de Mário de Andrade passa longe do herói corajoso, nobre e moralmente exemplar.

É malandro, contraditório, cheio de artimanhas.

O subtítulo da obra anuncia: “o herói sem nenhum caráter”.

Macunaíma muda de forma.

Lula muda de discurso.

E, no palanque, a conveniência parece decidir qual personagem entra em cena.

Antes da urna, Lula dispensou os debates.

Depois da urna, descobriu sua importância.

E agora quer ir ao rádio, conversar mais com o povo.

Uma beleza!

A televisão continua a mesma. O rádio idem.

Quem mudou foi a conveniência.

O debate ganhou utilidade assim que o eleitor perdeu a obediência.

Enquanto isso, setores do PT procuram o culpado pelo resultado do primeiro turno.

Encontraram Sidônio Palmeira, ministro da Secretaria de Comunicação Social.

O detalhe delicioso é que Sidônio defendia a presença de Lula no debate da Globo.

O conselho foi recusado.

A conta chegou ao conselheiro.

É uma autocrítica muito original: examina-se o próprio fracasso até descobrir o erro de outra pessoa.

Sartre escreveu que “o inferno são os outros”.

Na adaptação petista, o inferno são os assessores.

O líder fica no céu.

Eis o ponto em que nosso Macunaíma troca a rede pelo altar.

Para uma parcela de seus seguidores, Lula já não é um político sujeito a cobrança.

É um patrimônio afetivo.

Uma divindade!

Suas contradições recebem explicações;

seus erros encontram procuradores;

suas mudanças de posição ganham o nome de sabedoria.

A coerência é cobrada dos adversários.

Ao líder, basta a esperteza.

Mas eleição tem uma inconveniência: o eleitor pode interromper a missa.

Lula tem todo o direito de disputar, debater e tentar virar o jogo.

O que merece uma boa gargalhada é essa descoberta súbita das virtudes do confronto.

Nosso Macunaíma olhou a urna, ajeitou o paletó e chamou o adversário para conversar.

Mudou a disposição.

Mudou o discurso.

A conveniência continua intacta.

Veja o comentário em vídeo (aqui)



Fonte: O comentário do dia de Ricardo Marques

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