Ricardo Marques

A verdade em tempos de conveniência

Por: O comentário do dia de Ricardo Marques | Publicado: 11/10/2026 08:00 - Atualizado em 11/10/2026 08:02 - 0 comentário


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POR RICARDO MARQUES 


A verdade — essa palavra tão curta —

talvez seja uma das maiores inquietações humanas.

O que é, afinal, a verdade?

É algo sólido, absoluto, que existe independentemente de nós?

Ou é um espelho fragmentado, refletindo versões moldadas por interesses, crenças e conveniências?

Há quem defenda a verdade objetiva — aquela que resiste ao tempo, à opinião e à paixão. A verdade dos fatos, dos números, daquilo que aconteceu. Mas há também a verdade subjetiva — aquela que nasce da experiência, da dor, da memória, do olhar de cada um.

E é nesse ponto que entra Clarice Lispector,

com sua inquietação quase desconcertante.

Quando ela diz que deseja “uma verdade inventada”, não está defendendo a mentira. Está, talvez, recusando a prisão do óbvio.

Está dizendo que a vida não cabe apenas no que é lógico, mensurável, comprovável. Há verdades que só existem no sentir — e não no provar.

Mas o nosso tempo… o nosso tempo é outro.

Vivemos a era da chamada “pós-verdade”,

onde o fato concreto passou a valer menos que a crença pessoal. Não importa o que aconteceu — importa no que se quer acreditar.

E, pior: a verdade deixou de ser um valor para se tornar uma arma.

Manipula-se. Distorce-se. Recorta-se.

A verdade, hoje, é muitas vezes moldada como ferramenta de poder.

E isso é perigoso.

Porque quando tudo vira versão,

quando toda narrativa se pretende verdade, o que se perde não é apenas o fato — é a confiança. E uma sociedade sem confiança não se sustenta.

Talvez o desafio do nosso tempo não seja apenas encontrar a verdade — mas ter coragem de sustentá-la.

Porque a verdade exige algo que anda em falta: caráter.

Falar com sinceridade. Andar em retidão. Dizer o que é — ainda que custe.

Talvez Clarice estivesse certa ao buscar uma “verdade inventada” no campo da arte, onde a imaginação revela o que a lógica não alcança.

Mas, fora dali — na vida concreta, na política, na convivência humana — a verdade não pode ser invenção conveniente.

Ela precisa ser compromisso.

E talvez o desafio não seja descobrir a verdade — mas ter coragem de sustentá-la.

Porque a verdade exige caráter.

E, num mundo onde a mentira virou método… dizer a verdade virou resistência.

 

Veja o comentário em vídeo (aqui).



Fonte: O comentário do dia de Ricardo Marques

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