POR RICARDO MARQUES
A verdade — essa palavra tão curta —
talvez seja uma das maiores inquietações humanas.
O que é, afinal, a verdade?
É algo sólido, absoluto, que existe independentemente de nós?
Ou é um espelho fragmentado, refletindo versões moldadas por interesses, crenças e conveniências?
Há quem defenda a verdade objetiva — aquela que resiste ao tempo, à opinião e à paixão. A verdade dos fatos, dos números, daquilo que aconteceu. Mas há também a verdade subjetiva — aquela que nasce da experiência, da dor, da memória, do olhar de cada um.
E é nesse ponto que entra Clarice Lispector,
com sua inquietação quase desconcertante.
Quando ela diz que deseja “uma verdade inventada”, não está defendendo a mentira. Está, talvez, recusando a prisão do óbvio.
Está dizendo que a vida não cabe apenas no que é lógico, mensurável, comprovável. Há verdades que só existem no sentir — e não no provar.
Mas o nosso tempo… o nosso tempo é outro.
Vivemos a era da chamada “pós-verdade”,
onde o fato concreto passou a valer menos que a crença pessoal. Não importa o que aconteceu — importa no que se quer acreditar.
E, pior: a verdade deixou de ser um valor para se tornar uma arma.
Manipula-se. Distorce-se. Recorta-se.
A verdade, hoje, é muitas vezes moldada como ferramenta de poder.
E isso é perigoso.
Porque quando tudo vira versão,
quando toda narrativa se pretende verdade, o que se perde não é apenas o fato — é a confiança. E uma sociedade sem confiança não se sustenta.
Talvez o desafio do nosso tempo não seja apenas encontrar a verdade — mas ter coragem de sustentá-la.
Porque a verdade exige algo que anda em falta: caráter.
Falar com sinceridade. Andar em retidão. Dizer o que é — ainda que custe.
Talvez Clarice estivesse certa ao buscar uma “verdade inventada” no campo da arte, onde a imaginação revela o que a lógica não alcança.
Mas, fora dali — na vida concreta, na política, na convivência humana — a verdade não pode ser invenção conveniente.
Ela precisa ser compromisso.
E talvez o desafio não seja descobrir a verdade — mas ter coragem de sustentá-la.
Porque a verdade exige caráter.
E, num mundo onde a mentira virou método… dizer a verdade virou resistência.
Veja o comentário em vídeo (aqui).
Fonte: O comentário do dia de Ricardo Marques
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