POR RICARDO MARQUES
Distante da família, aqui, em São Luís, descobri que morar sozinho não é solidão — é um laboratório existencial. Você fala sozinho, responde, rebate… e às vezes perde a discussão. É o único lugar onde o diálogo interno vira debate público, sem moderação.
Quem mora sozinho aprende rápido: a geladeira julga, a rede acolhe e o espelho não perdoa. Você se pega dando bom-dia em voz alta, comentando o noticiário como se houvesse plateia, e rindo das próprias piadas — o último reduto da sinceridade.
Morar sozinho é descobrir que a liberdade cobra aluguel. Não há testemunhas, mas há consciência. Não há cobrança externa, mas sobra autocrítica. É ali que o indivíduo moderno ensaia seus discursos, seus medos e suas pequenas loucuras cotidianas.
No fundo, falar sozinho é um pedido de ordem num mundo barulhento demais. É o cidadão tentando se ouvir num país que grita o tempo todo. Talvez por isso funcione: quem se escuta, pensa. E quem pensa, resiste.
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Fonte: O comentário do dia de Ricardo Marques
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Comentários
Dionísio Ferreira Lima Garcia
11/01/2026 16:47
Belíssima lição de vida com formação em doutorado, mestrado e tudo mais sem frequentar universidade. Aliás frequentando a melhor de todas: A vida sabiamente bem vivida como você sabe muito bem fazer. Dionísio Ferreira Lima Garcia.