POR RICARDO MARQUES
Há algo de profundamente errado quando o progresso chega pingando lama no mar. Na foz do Amazonas, onde a natureza ainda respira em escala planetária, vazaram 15 mil litros de fluido de perfuração — e chamam isso de “normal”. Normal para quem? Para o peixe? Para o mangue? Para os povos que vivem da água e não do discurso?
Invoca-se o crescimento, a soberania energética, o futuro. Mas o futuro, aqui, escorreu num domingo qualquer, a 175 quilômetros da costa, revelando que as promessas de segurança são frágeis como papel molhado. Fala-se em fluido “biodegradável”, como se química tivesse consciência ecológica. Como se o mar fosse um ralo infinito.
Estamos falando da maior faixa contínua de manguezais do planeta, de recifes sensíveis, de correntes marítimas violentas, de povos indígenas e quilombolas que sequer foram consultados — porque ouvir dá trabalho, e atrasar lucro é pecado mortal.
Entre 1975 e 2014, mais de 95% dos acidentes ocorreram em águas profundas. Estatística não é ideologia. É aviso. Ignorá-la é arrogância técnica travestida de desenvolvimento.
A pergunta não é se o vazamento foi pequeno. É se estamos dispostos a transformar um santuário natural em laboratório de riscos irreversíveis.
Veja o comentário em vídeo (aqui)
Fonte: O comentário do dia de Ricardo Marques
Deixe seu comentário aqui
Comentários
Nenhum comentário foi encontrado, seja o primeiro a comentar!