POR RICARDO MARQUES
O Brasil é uma tragédia — e, como toda tragédia, tem seus personagens fixos. No palco solene do Supremo Tribunal Federal, onde deveria reinar a liturgia austera da Justiça, começam a surgir sobrenomes que se repetem como ecos de família em almoço de domingo.
Levantamento do jornal Estadão revela que parentes de ministros tiveram um salto vertiginoso de atuação nos tribunais superiores depois que seus familiares vestiram a toga suprema. Setenta por cento dos processos vieram depois da posse. Setenta! Não é estatística — é dramaturgia.
Dirão: tudo legal, tudo dentro das normas de impedimento. E pode ser mesmo. Mas o problema do Brasil nunca foi apenas o ilegal — é o imoral com aparência de normalidade. O sujeito olha e pensa: “Que coincidência extraordinária!” E coincidência, no Brasil, costuma ter endereço, sobrenome e cartão de visita.
A Justiça não pode parecer uma reunião de condomínio familiar. Porque, quando parece, perde-se algo invisível e essencial: a confiança pública. E sem confiança, a toga vira fantasia — e o tribunal, teatro.
Veja o comentário em vídeo (aqui)
Fonte: O comentário do dia de Ricardo Marques
Deixe seu comentário aqui
Comentários
Nenhum comentário foi encontrado, seja o primeiro a comentar!