POR RICARDO MARQUES
A Quarta-feira de Cinzas é o dia em que o Brasil se olha no espelho sem purpurina. A maquiagem escorreu, o glitter virou poeira doméstica, e o samba — ah, o samba — dorme num canto, como um amante exausto depois da madrugada.
Ontem, éramos deuses pagãos, abraçados à eternidade de quatro dias. Hoje, somos mortais outra vez. A carne, que foi rainha, volta a ser serva. O tambor silencia e, no silêncio, ouvimos algo mais antigo que o Carnaval: a nossa própria consciência.
Há uma tristeza elegante na Quarta-feira de Cinzas. Não é luto — é lucidez. É quando percebemos que toda euforia cobra aluguel. Que toda fantasia tem prazo de devolução. E que a vida, essa senhora dramática, não aceita confete como pagamento.
As igrejas se enchem de fiéis marcados com cinza na testa. É a assinatura do pó. “Lembra-te que és pó”, sussurra a liturgia. E o homem, tão vaidoso no desfile, descobre que é feito da mesma matéria que varre da sala.
Mas não há desespero nisso. Há verdade. A Quarta-feira de Cinzas não nos humilha — nos revela. Depois da explosão dos sentidos, vem a disciplina do espírito. Depois do excesso, o jejum. Depois do riso escancarado, a introspecção.
É o Brasil descendo do salto. É a alma trocando fantasia por espelho.
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Fonte: O comentário do dia de Ricardo Marques
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