POR RICARDO MARQUES
Heráclito ensinava que o caráter é destino. Séculos depois, Nelson Rodrigues transformou essa verdade em literatura, mostrando que ninguém consegue fugir da própria natureza. Na política, às vezes, o destino apenas encontra a oportunidade de se revelar.
Há traições que não surpreendem pelo resultado. Surpreendem pela ingratidão.
A Bíblia eternizou o beijo de Judas. Não foi o gesto que escandalizou a História, mas o seu simbolismo: quem caminhava ao lado de Jesus foi justamente quem o entregou.
Na política, alianças começam e terminam. Isso faz parte da democracia. O problema não é mudar de lado. O problema é fazê-lo depois de reconhecer, em público, que foi exatamente aquele aliado quem lhe abriu as portas, quem lhe estendeu a mão e quem transformou a realidade da cidade que hoje administra.
Num dia, o prefeito Rildo Amaral faz sucessivos elogios ao governador Carlos Brandão, atribuindo a ele obras e ações que mudaram Imperatriz. Na manhã seguinte, optou por outro projeto político, fazendo surgir uma pergunta inevitável: o que mudou? A realidade… ou a conveniência?
O Maranhão conhece esse roteiro. Em toda eleição aparecem personagens que descobrem novas convicções exatamente quando colocam seus interesses pessoais acima da lealdade e da coerência. Uns chamam isso de estratégia. Outros enxergam apenas a velha ingratidão travestida de cálculo político.
A política não exige fidelidade eterna. Exige coerência. Porque a memória do eleitor pode até demorar, mas quase sempre cobra a conta.
Os mandatos passam. Os acordos mudam. As conveniências se reinventam. A reputação, porém, permanece.
E, no fim, Heráclito continua tendo razão: o caráter sempre acaba escrevendo o destino.
Veja o comentário em vídeo (aqui)
Fonte: O comentário do dia de Ricardo Marques
Deixe seu comentário aqui
Comentários
Nenhum comentário foi encontrado, seja o primeiro a comentar!